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Estilística

Texto:
por: Mariana do Carmo Pacheco

Metáfora


A metáfora é o recurso estilístico responsável por transpor o sentido literal para o figurado.





A metáfora é um dos recursos estilísticos mais utilizados pelos falantes da língua portuguesa
A metáfora é um dos recursos estilísticos mais utilizados pelos falantes da língua portuguesa



Os recursos estilísticos são ferramentas que garantem maior expressividade aos textos e à fala. Muitas vezes, atribuímos a alguma palavra um termo que não é comum a ela. Quando fazemos isso, estamos utilizando a metáfora. Essa figura de linguagem é responsável por transportar o sentido literal de uma palavra ou frase, dando-lhe um sentido figurado.

Constatada essa incompatibilidade de pertencimento de uma palavra ou termo, o receptor da mensagem conseguirá compreender, de fato, a alteração que o emissor provocou e qual foi a intenção dele ao fazer tal modificação.

Para melhor exemplificarmos o elo metafórico, segue um exemplo:

“Aquele menino ali é um girafa.” A comparação feita nessa frase é impossível, uma vez que “menino” e “girafa” não integram o mesmo campo de significação. Menino é do campo humano, e girafa é do campo animal. Para que entendamos a intenção do autor ao estabelecer essa relação, precisamos isolar o termo girafa de seu campo de significação lexical, espécie animal, e integrá-lo às conotações possíveis que circundam essa palavra. Agora, a partir do contexto gerado pela palavra menino, podemos selecionar a melhor conotação para que o sentido da frase seja alcançado: muito alto, herbívoro. A caracterização que melhor se encaixa para modificar menino é a que se refere à altura, uma vez que herbívoro não é categorização no campo humano. Finalizado esse processo, podemos entender que a ideia que o autor pretendeu passar é a de que determinado menino é muito alto.

Esse tipo de metáfora, conhecida como “de uso”, é o mais acessível a todos, uma vez que os campos de significação e as possibilidades de conotações são comuns para os falantes da língua. Entretanto, esse não é o único tipo de metáfora possível. Há, também, as “metáforas de invenção”. Essas possuem elevado nível de criatividade e, muitas vezes, fazem-nos esbarrar em interpretações surpreendentes e, até mesmo, em novas significações. É o que acontece bastante em músicas e poesias.

Olhem só o recado de Gilberto Gil sobre as metáforas:

Uma lata existe para conter algo,
Mas quando o poeta diz lata
Pode estar querendo dizer o incontível

Uma meta existe para ser um alvo,
Mas quando o poeta diz meta
Pode estar querendo dizer o inatingível

Por isso não se meta a exigir do poeta
Que determine o conteúdo em sua lata
Na lata do poeta tudo-nada cabe,
Pois ao poeta cabe fazer
Com que na lata venha caber
O incabível

Deixe a meta do poeta, não discuta,
Deixe a sua meta fora da disputa
Meta dentro e fora, lata absoluta
Deixe-a simplesmente metáfora

A filosofia de Paul Ricoeur pela editora Instituto Piaget *
A filosofia de Paul Ricoeur pela editora Instituto Piaget *

Paul Ricouer, filósofo francês, também deixou sua contribuição para que possamos entender melhor as “metáforas de invenção”**: “a interpretação metafórica, fazendo surgir uma nova pertinência semântica sobre as ruínas do sentido literal, suscita também uma nova visão referencial.” (p. 289). O que podemos evidenciar a partir disso é que esse tipo de metáfora cria seus próprios referentes com base no contexto poético em que está inserido. Diferentemente das metáforas de uso, com as “metáforas de invenção”, a fim de que sejam compreendidas de fato, devemos considerar tudo que envolve o texto que inclui a expressão metafórica: vida e obra do autor, contexto de produção da obra, construção das imagens realizadas ao longo do texto. Só assim conseguiremos ter certeza da interpretação adequada para a metáfora em questão.

Vejam alguns exemplos de metáforas em poemas e músicas:

→ A canção Rosa dos Ventos, de Chico Buarque, representa o que ele viveu no período ditatorial. Ela foi produzida quando o compositor retornou do autoexílio na Itália.

“E na gente deu o hábito
De caminhar pelas trevas
De murmurar entre as pregas
De tirar leite das pedras
De ver o tempo correr”

Em “murmurar entre as pregas”, há a metáfora da dificuldade de não poder se expressar de maneira clara e transparente em virtude das imposições da ditadura. Em “tirar leite das pedras”, Chico enuncia, a partir de um ditado popular, a metáfora de estar vivendo o impossível.

→ Poema Rosa de Hiroshima, Vinícius de Moraes.

Rosa de Hiroshima

Pensem nas crianças
Mudas telepáticas
Pensem nas meninas
Cegas inexatas
Pensem nas mulheres
Rotas alteradas
Pensem nas feridas
Como rosas cálidas
Mas oh não se esqueçam
Da rosa da rosa
Da rosa de Hiroxima
A rosa hereditária
A rosa radioativa
Estúpida e inválida
A rosa com cirrose
A antirrosa atômica
Sem cor sem perfume
Sem rosa sem nada.

Todo o poema de Vinícius é uma metáfora, uma vez que ele recria a tragédia ocorrida em Hiroshima, no Japão, de forma não literal.

No texto de Vinícius de Moraes, a rosa não é representada por suas significações mais conhecidas: beleza, perfume, delicadeza. Muito pelo contrário, todas as suas atribuições positivas são desconstruídas por termos que invocam ideias opostas às significações comuns de uma rosa: estúpida, inválida, sem cor, sem perfume, com cirrose. Notamos, então, que o autor traz a bomba de Hiroshima, que foi responsável por uma tragédia marcante na história mundial, como uma rosa, símbolo expressivo de beleza e delicadeza. É notável, portanto, que uma rosa não faz parte do campo de significação de uma bomba e vice-versa. Literalmente, uma rosa não é uma bomba.

Após os esclarecimentos sobre uma das figuras de linguagem mais utilizadas pelos falantes de língua portuguesa e depois de realizarmos a leitura de alguns textos, é possível afirmar que a metáfora é uma ferramenta que nos permite constante revitalização da linguagem. Isso acontece porque compreender uma metáfora exige interpretação, o que nos faz estabelecer relações entre palavras, história, arte, culturas e opiniões, permitindo-nos a criação de novas significações (como acontece bastante em poesias e músicas). Tais ações, portanto, fazem com que a nossa língua permaneça viva e em constante renovação.

* Capa do livro A Filosofia de Paul Ricoeur, de Lewis Edwin Hahn, 1ª ed., Editora Instituto Piaget.
** RICOEUR, P. La metáphore vive. Paris, Seuil, 1975.





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