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Semântica

Texto:
por: Luana Castro Alves Perez

Selfie ou autorretrato?


O uso de estrangeirismos e empréstimos linguísticos é um assunto sempre recorrente! Afinal, qual é o termo correto, selfie ou autorretrato?





No ano de 2013, a palavra selfie bateu todos os recordes de procura nos buscadores da internet, fato que a fez ser eleita como a palavra do ano
No ano de 2013, a palavra selfie bateu todos os recordes de procura nos buscadores da internet, fato que a fez ser eleita como a palavra do ano



Quem pensa que as línguas são elementos terminados e convencionados, representações fiéis daquilo que prescrevem os dicionários, está muito errado! A língua é um organismo vivo, vulnerável às variações linguísticas, modismos, estrangeirismos linguísticos e toda sorte de fatores que são inseridos na modalidade oral pelos falantes, os verdadeiros donos do idioma.

Entre as várias polêmicas que vez ou outra envolvem a língua portuguesa, está o uso exagerado dos empréstimos linguísticos. A mais recente questão envolve uma mania muito difundida na internet, que ainda carece de respostas. Afinal de contas, qual é o termo correto: selfie ou autorretrato? Pois é, provando que a linguística é uma ciência curiosa e digna de discussões, fomos colocados mais uma vez diante de um impasse entre idiomas.

Os empréstimos linguísticos são uma realidade nas diversas línguas, não seria diferente com a língua portuguesa. Algumas palavras adaptaram-se tão bem ao nosso idioma que fica até mesmo difícil precisar o que é empréstimo e o que é genuinamente nosso. Outras não conseguem se disfarçar tão bem e logo entregam que são, na verdade, “intrusas” do léxico. Mas como sabemos que não devemos tratar a língua como algo fixo e invariável, é preciso cautela antes de sair gritando por aí que a língua inglesa (principal fornecedora de empréstimos linguísticos na atualidade) quer dominar o mundo e acabar com nossa identidade cultural.

A verdade é que, no mundo da informática, os termos em inglês facilitam a comunicação e a difusão da informação, então nada mais comum de que os estrangeirismos propaguem-se com maior força nesse meio. Dizer que vai fazer uma selfie em vez de dizer que vai fazer um autorretrato envolve questões que devem ser consideradas, como a popularidade do termo selfie e o pouco uso do termo autorretrato. Dizer que vai tirar uma selfie é mais fácil do que dizer que vai tirar um autorretrato, não é mesmo? Apesar desses fatores, linguistas mais tradicionais consideram o uso do termo em inglês um caso de estrangeirismo desnecessário, já que existe na língua portuguesa uma expressão equivalente, o que supostamente deslegitimaria qualquer argumento em defesa da palavra selfie.

Com origem na língua inglesa, a palavra selfie é uma redução da palavra self-portrait, que significa autorretrato
Com origem na língua inglesa, a palavra selfie é uma redução da palavra self-portrait, que significa autorretrato

Você já sabe a origem da palavra selfie, pois, como já dissemos, trata-se de uma palavra de origem inglesa. O vocábulo selfie é um neologismo com origem no termo self-portrait, que significa autorretrato. Como o próprio nome diz, a pessoa posa para a foto ao mesmo tempo em que se fotografa. As selfies são extremamente populares, compartilhadas em diversas redes sociais da internet — na verdade, essa é sua grande finalidade. A palavra selfie já é tão popular que, no ano de 2013, os responsáveis pelos dicionários da Oxford, da Universidade de Oxford (a mais antiga universidade do mundo anglófono), escolheram selfie a palavra do ano. O motivo para a escolha é simples: em 2013, seu emprego cresceu 17.000% (!!!), o que a tornou uma das palavras mais procuradas nos buscadores da internet.

É preciso pensar na linguística, assim como é preciso ressaltar que somos seres históricos e sociais, portanto somos peças-chave para a evolução (e também preservação) do idioma. Alguns empréstimos surgem e não duram mais do que uma estação, provando assim que são inofensivos e que não causam prejuízo algum à nossa bela e inculta flor do Lácio, como já diria o parnasiano Olavo Bilac. A língua é também resultado das variações linguísticas, e sendo assim, dizer que vai fazer uma selfie não tem problema algum! Mas quem acaba preterindo o próprio idioma em benefício de outro corre o sério risco de criar entraves linguísticos prejudiciais ao bom entendimento da mensagem que quer passar. Se a principal função da língua é a comunicabilidade, nada como ter bom senso e utilizar os estrangeirismos com parcimônia. Certamente seus interlocutores ficarão agradecidos!