Você está aqui: Página Inicial » Gramática » Morfologia » Versatilidade pronominal

Morfologia

Texto:
por: Luana Castro Alves Perez

Versatilidade pronominal


Você já ouviu falar na versatilidade pronominal? Ela acontece em situações específicas da escrita e da oralidade, demandando cuidado e análise para ser identificada.





Os pronomes nem sempre apresentam sua carga semântica habitual: é nesses casos que ocorre a chamada versatilidade pronominal
Os pronomes nem sempre apresentam sua carga semântica habitual: é nesses casos que ocorre a chamada versatilidade pronominal



Você já ouviu falar na versatilidade dos pronomes?

Pois bem, ela existe e é pouco notada quando analisamos e interpretamos os mais diferentes tipos de texto. Nós já sabemos que o pronome é uma classe de palavras que se refere a um significado lexical indicado pelo contexto de uma oração ou pela situação. No discurso, geralmente duas pessoas estão determinadas:

1ª. eu (a pessoa que corresponde ao falante);

2ª. tu (a pessoa correspondente ao falante).

Há, ainda, uma 3ª pessoa, esta, indeterminada, que apontará para outra pessoa ou coisa integrante da relação comunicativa. Contudo, embora seja possível identificar e determinar as pessoas do discurso, nem sempre podemos dizer que eles sempre ocupam o mesmo lugar no discurso no que diz respeito à semântica. Observada essa questão, temos aquilo que os linguistas chamam de versatilidade pronominal. Para compreender como esse fenômeno ocorre, o sítio de Português selecionou alguns exemplos para você. Bons estudos!

Exemplos de versatilidade pronominal

Um “eu” que expressa outra pessoa:

Em um discurso, geralmente a primeira pessoa é facilmente identificada, não é mesmo? Mas não podemos generalizar a questão, visto que, em alguns casos, o “eu” não é necessariamente a pessoa que fala.

Chamamos de “elocutivo” a pessoa que fala; “alocutivo” a pessoa com quem se fala, e “delocutivo” a pessoa de quem se fala, independentemente do pronome empregado. Observe a letra da canção O meu amor, de Chico Buarque:

O meu amor tem um jeito manso que é só seu
E que me deixa louca quando me beija a boca
A minha pele toda fica arrepiada
E me beija com calma e fundo
Até minh'alma se sentir beijada (...)”.

Esse sujeito que reside em meu, minha (pronomes possessivos) e me (pronome pessoal oblíquo) não se refere ao autor da música, mas sim à personagem da letra da canção, e fosse um poema, poderíamos chamar essa personagem de eu lírico. Portanto, analisando detidamente o fragmento da canção, podemos afirmar que meu, me e minha são exemplos de pronomes delocutivos, pois o autor está denotando a pessoa de quem se fala.

Quando "ele" sou eu:

E quando o “ele” transforma-se em um pronome elocutivo? Pois bem, em algumas situações, o pronome “ele” passa a fazer referência à própria pessoa que fala. Observe o exemplo:

O entregador de gás bateu à porta com força e insistência. Sua atitude irritou a dona de casa, que disse aos berros: “Já vai, já vai!”.

Ao analisarmos a sentença em destaque, percebemos que esse “já vai”, na verdade, observada sua estrutura profunda, quer dizer “já vou”. O sujeito do “já vai” é o pronome “ele”, o que comprova a ocorrência do pronome elocutivo.

O nós que não nos inclui:

Seria isso possível? A resposta para a pergunta é... sim, há casos em que o pronome nós não inclui aquele que fala. Observe o exemplo:

A professora chegou na sala de aula e perguntou para os alunos:

“Como passamos o final de semana? Fizemos a lição de casa?”

Nas formas verbais “passamos” e “fizemos”, aquele que fala, ou seja, a professora, não está inclusa, refere-se apenas aos alunos. Portanto, esse “nós” é um pronome alocutivo, pois faz referência à pessoa com quem se fala.

Quem é "você"?

Você sai de casa, (você) enfrenta duas horas no trânsito, (você) chega na agência bancária e então (você) percebe que você esqueceu a carteira com todos os documentos... Que tristeza!

Afinal, quem é esse “você” no discurso acima? Será que o elocutor está referindo-se a uma segunda pessoa? Você, embora inconscientemente, sabe que o “você” ao qual o elocutor refere-se trata-se dele mesmo, que utiliza a forma de 2ª pessoa para que o leitor ou o interlocutor possa sentir-se como ele sentiu-se na situação descrita.

→ “Ele” é 2ª pessoa:

Observe o seguinte exemplo:

O filho dirige-se à mãe e em tom de súplica indaga:

“Mamãe, posso fazer bagunça no seu quarto?”

Ao que ela responde:

Ele ainda pede!”.

Esse “ele” passou a ser, de acordo com o contexto da frase, um pronome de tratamento de 2ª pessoa, pois em vez de a mãe responder “Você ainda pede?”, ela diz, como quem se mostra espantada com o pedido, “Ele ainda pede!”. Portanto, o “ele” foi deslocado de sua significação habitual, fazendo as vezes do tu ou do você.