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Literatura Portuguesa

Texto:
por: Luana Castro Alves Perez

Cinco poemas de Miguel Torga


Os poemas de Miguel Torga, importante poeta da literatura portuguesa, mostram o aspecto humanista da obra de um dos principais representantes do Presencismo.





Capa do livro Novos Contos da Montanha, de Miguel Torga. Publicação da editora portuguesa Dom Quixote
Capa do livro Novos Contos da Montanha, de Miguel Torga. Publicação da editora portuguesa Dom Quixote



Miguel Torga, pseudônimo de Adolfo Correia da Rocha, foi um dos mais importantes poetas e escritores da literatura portuguesa do século XX. Destacou-se como poeta, contista e memorialista, mas dedicou-se também ao teatro, romance e ensaios.

Nasceu no dia 12 de agosto de 1907 na então freguesia de São Martinho da Anta, concelho de Sabrosa, Trás-os-Montes, Portugal. De origem humilde, emigrou para o Brasil em 1920 com apenas treze anos para trabalhar na fazendo do tio, proprietário de uma fazenda de café em Minas Gerais. Dotado de grande inteligência, voltou para Portugal em 1925, ingressando na Faculdade de Medicina de Coimbra. Como recompensa pelo trabalho na fazenda de café, teve os estudos patrocinados pelo tio, formando-se em 1933. Os primeiros livros foram publicados quando Torga ainda era estudante e, em 1929, aos vinte e dois anos, passou a colaborar com a Revista Presença, então principal publicação literária de Portugal.

Em virtude da discordância estética, em 1930, encerrou a parceria com a revista Presença, assumindo então uma posição independente no cenário da literatura portuguesa. Em colaboração com Branquinho da Fonseca, outro remanescente do Presencismo (também conhecido como segunda geração do modernismo português), fundou a revista Sinal e, posteriormente, ao lado de Albano Nogueira, o periódico Manifesto, ambas publicações tiveram curta duração. Autor prolífico, publicou mais de cinquenta livros ao longo de seis décadas e foi várias vezes indicado ao Prêmio Nobel de Literatura.

Miguel Torga publicou seu último livro em 1993 e, depois de longa batalha contra um câncer, faleceu no dia 17 de janeiro de 1995, na cidade de Coimbra, Portugal. Para que você conheça um pouco mais da poesia desse importante escritor português conhecido por traduzir em sua obra a rebeldia e o inconformismo com as injustiças sociais e os abusos de poder, o sítio de Português selecionou cinco poemas de Miguel Torga para deixá-lo(a) mais perto da poesia humanista desse grande escritor. Boa leitura!

De tanto olhar o sol

De tanto olhar o sol, 
queimei os olhos,
De tanto amar a vida enlouqueci. 
Agora sou no mundo esta negrura. 
À procura 
Da luz e do juízo que perdi.

De tanto olhar o sol

Confiança

O que é bonito neste mundo, e anima,
É ver que na vindima
De cada sonho
Fica a cepa a sonhar outra aventura…
E que a doçura
Que se não prova
Se transfigura
Numa doçura
Muito mais pura
E muito mais nova…

Começo

Magoei os pés no chão onde nasci.
Cilícios de raivosa hostilidade
Abriram golpes na fragilidade
De criatura
Que não pude deixar de ser um dia.
Com lágrimas de pasmo e de amargura
Paguei à terra o pão que lhe pedia.

Comprei a consciência de que sou
Homem de trocas com a natureza.
Fera sentada à mesa
Depois de ter escoado o coração
Na incerteza
De comer o suor que semeou,
Varejou,
E, dobrada de lírica tristeza,
Carregou.

Lírica

No meu
jardim aberto ao sol da vida,
Faltavas tu, humana flor da infância
Que não tive....
E o que revive
Agora
À volta da candura
Do teu rosto!
O recuado
Agosto
Em que nasci
Parece o recomeço
Doutro destino:
Este, de ser menino
Ao pé de ti...

Apelo

Porque
não vens agora, que te quero
E adias esta urgencia?
Prometes-me o futuro e eu desespero
O futuro é o disfarce da impotência....

Hoje, aqui, já, neste momento,
Ou nunca mais.
A sombra do alento é o desalento
O desejo o imite dos mortais.





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