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Literatura Portuguesa

Texto:
por: Vânia Maria do Nascimento Duarte

Analisando os vários heterônimos de Fernando Pessoa


Fernando Pessoa é um dos maiores nomes da Literatura Portuguesa. A heteronímia é um dos grandes marcos de sua obra.





Fernando Pessoa nasceu em Lisboa, Portugal, em 1888.
Fernando Pessoa nasceu em Lisboa, Portugal, em 1888.



perfil heteronímico de Fernando Pessoa, um dos maiores escritores da literatura em língua portuguesa, não se trata apenas de meros pseudônimos, mas sim do fenômeno relacionado com o vários desdobramentos do “eu” poético, transformando-se em outros “eus”, todos dotados de biografia, produção e visão ideológica própria. Por se tratar de uma tendência marcante e inovadora, o poeta fez questão de tornar públicos os motivos pelos quais adotou tal personalidade, como bem nos revela os trechos transcritos na carta endereçada a seu amigo e crítico literário Adolfo Casais Monteiro, datada de 13 de janeiro de 1935, na qual ressalta:

"Passo agora a responder à sua pergunta sobre a gênese dos meus heterônimos. Vou ver se consigo responder-lhe completamente. Começo pela parte psiquiátrica. A origem dos meus heterônimos é o fundo traço de histeria que existe em mim. Não sei se sou simplesmente histérico, se sou, mais propriamente, um histero-neurastênico. Tendo para esta segunda hipótese, porque há em mim fenômenos de abulia que a histeria, propriamente dita, não enquadra no registro dos seus sintomas. Seja como for, a origem mental dos meus heterônimos está na minha tendência orgânica e constante para a despersonalização e para a simulação. [...]"

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Heterônimos de Fernando Pessoa

Os heterônimos criados por esse ilustríssimo autor foram: Alberto Caeiro, Álvaro de Campos, Ricardo Reis e Bernardo Soares. Estudos apontam que tal fato encontra-se arraigado ao contexto histórico que demarcava o solo lusitano, caracterizado pelo clima de instabilidade interna. Convivendo em meio a sucessivas greves associadas à eclosão da Primeira Guerra Mundial e à necessidade de defender as colônias ultramarinas, o povo português manifestou seu profundo sentimentalismo, marcado pelo saudosismo em decorrência da lembrança das antigas glórias marítimas e pela lamentação pelo desconcerto que dominou o país após o desaparecimento de D. Sebastião.

Esses fatores contribuíram para a manifestação da pluralidade existente na personalidade de Fernando Pessoa ao revelar os múltiplos aspectos dos quais se perfaz o mundo moderno. Ao partirmos desse pressuposto, entendemos que os heterônimos figuravam-se como verdadeiras “máscaras” – subsídios utilizados pelo poeta com o objetivo de se esconder para só assim se revelar, em uma tentativa de investigar a realidade misteriosa e a consequente relação com o indivíduo que a insere.

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Heterônimos de Fernando Pessoa
Alberto Caeiro, Álvaro de Campos e Ricardo Reis estão entre os heterônimos de Pessoa. O Livro do desassossego é assinado por Bernardo Soares

Vamos conhecer melhor os heterônimos que marcaram a obra desse grande poeta?

Alberto Caeiro

De acordo com a biografia instituída por Fernando Pessoa, Alberto Caeiro era órfão e vivia com uma tia no campo, por isso, só recebeu a instrução primária. Autor de uma poesia aparentemente caracterizada pela simplicidade, no fundo ,mostra-se norteada por uma intensa complexidade filosófica, visto que o poeta nega tudo que esteja aquém da percepção sensível. Em função de tal posicionamento, demonstra todo seu empenho em impedir que o pensamento racional dificulte o contato direto com a natureza.

Apresentando-se como rústico e ingênuo, considera que o verdadeiro conhecimento é aquele oriundo das forças sensitivas, pois acredita que a racionalidade preconizada pela ciência acaba por destituir a naturalidade humana, ao criar mistérios que na verdade não existem. Tais pressupostos pedem ser conferidos em O guardador de rebanhos:

Eu nunca guardei rebanhos,
Mas é como se os guardasse.
Minha alma é como um pastor,
Conhece o vento e o sol
E anda pela mão das Estações
A seguir e a olhar.
Toda a paz da Natureza sem gente
Vem sentar-se a meu lado.
Mas eu fico triste como um pôr do Sol
Para a nossa imaginação,
Quando esfria no fundo da planície
É se sente a noite entrada
Como uma borboleta pela janela.
Mas a minha tristeza é sossego
Porque é natural e justa
E é o que deve estar na alma
Quando já pensa que existe
E as mãos colhem flores sem ela dar por isso.
Como um ruído de chocalhos
Para além da curva da estrada,
Os meus pensamentos são contentes.
Só tenho pena de saber que eles são contentes,
Porque, se o não soubesse,
Em vez de serem contentes e tristes,
Seriam alegres e contentes.
Pensar incomoda como andar à chuva
Quando o vento cresce e parece que chove mais.
Não tenho ambições nem desejos
Ser poeta não é uma ambição minha
É a minha maneira de estar sozinho.
E se desejo às vezes
Por imaginar, ser cordeirinho
(Ou ser o rebanho todo
Para andar espalhado por toda a encosta
A ser muita cousa feliz ao mesmo tempo),
É só porque sinto o que escrevo ao pôr do Sol,
Ou quando uma nuvem passa a mão por cima da luz
E corre um silêncio pela erva fora.
[...]

 

Ricardo Reis
 


Mapa astral de Ricardo Reis

Ricardo Reis foi educado em colégio de jesuítas, tornou-se médico, monarquista e revela-se como verdadeiro apreciador da cultura clássica. Mostrando-se contrário a Alberto Caeiro, sua produção é permeada pela racionalidade, pautando-se por temas relacionados à fugacidade do tempo, haja vista ter sido bastante influenciado pelos representantes árcades. Diante de tal perspectiva, valoriza a simplicidade conferida pela vida campesina, tendo como fonte de inspiração a ideologia de Horácio (baseada no Carpe Diem).

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Demonstra ser um autêntico epicurista, uma vez adepto das ideias de Epicuro (séc. III a.C), o qual ressaltava que a verdadeira sabedoria reside no equilíbrio dos sentidos e nos prazeres naturais, abnegados de “eventuais” excessos, características demarcadas em:

Anjos ou Deuses
Anjos ou deuses, sempre nós tivemos,
A visão perturbada de que acima
De nós e compelindo-nos
Agem outras presenças.
Como acima dos gados que há nos campos
O nosso esforço, que eles não compreendem,
Os coage e obriga
E eles não nos percebem,
Nossa vontade e o nosso pensamento
São as mãos pelas quais outros nos guiam
Para onde eles querem E nós não desejamos.

Álvaro de Campos

Engenheiro naval formado na Escócia, Álvaro de Campos se mostra como um futurista, demonstrando sua sensibilidade poética arraigada no presente e no futuro, sendo que aquele aparece em menor instância, quase sempre camuflado no saudosismo dos tempos de criança.

Digamos que semelhantemente a Alberto Caeiro e Ricardo Reis, o poeta em questão também cultua as sensações, no entanto, estas resultam do contato com a modernidade, promovido pelo barulho dos automóveis, das máquinas a vapor, enfim, pelo crescimento industrial. Fatores responsáveis pelo instaurar de um sentimento de angústia e perplexidade - mediante tais avanços -, os quais resultam numa criação de cunho existencialista. Como nos revela a seguinte criação:

Tabacaria

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.

Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.

Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei de pensar?
[...]