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Literatura Brasileira

Texto:
por: Mariana Rigonatto

Primeira Geração do Romantismo no Brasil


A primeira geração do Romantismo no Brasil foi marcada por um forte sentimento nacionalista e, portanto, houve uma valorização da pátria e dos elementos que a compõem.





Índios Tupinambás -  O indianismo foi um dos temas principais da primeira geração do Romantismo no Brasil
Índios Tupinambás - O indianismo foi um dos temas principais da primeira geração do Romantismo no Brasil



Leia o poema de Gonçalves Dias:

CANÇÃO DO EXÍLIO

Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá;

As aves, que aqui gorjeiam,
Não gorjeiam como lá.
Nosso céu tem mais estrelas,
Nossas várzeas têm mais flores,
Nossos bosques têm mais vida,

Nossa vida mais amores.

Em cismar, sozinho, à noite,
Mais prazer encontro eu lá;

Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

Minha terra tem primores,
Que tais não encontro eu cá;

Em cismar - sozinho, à noite,
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

Não permita Deus que eu morra,
Sem que volte para lá;

Sem que desfrute os primores
Que não encontro por cá;
Sem qu'inda aviste as palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

Nota-se que o eu lírico expressa a saudade de sua pátria, comparando suas belezas, sua natureza, com o local onde se encontra exilado. Esse tipo de produção foi muito importante para a construção das bases da poesia no Brasil, pois, nesse momento da literatura, o país passava por transformações significativas, como a vinda da família real e, posteriormente, a independência, fatos que suscitaram a abordagem de temas sobre a pátria, a natureza, a religião, entre outros. Assim, o romantismo apresentou características de um movimento anticolonialista e antilusitano, ou seja, foi um movimento que se opunha aos moldes portugueses, uma vez que rejeitava a literatura produzida na época colonial. Portanto, um de seus traços essenciais foi o nacionalismo.

O contexto histórico da época foi influenciador direto das produções do movimento romântico. A vinda da família real possibilitou o contato com as novas tendências literárias trazidas do velho continente (continente europeu), com moldes franceses e ingleses. Como consequência dessa mudança da família real para o Brasil, o processo de independência instalara-se, despertando o sentimento nacionalista, o que fez com que o brasileiro olhasse para seu passado histórico como forma de enaltecer a sua pátria, valorizando a natureza e elegendo o índio como seu herói nacional.

Com o rompimento dos moldes clássicos baseados na literatura grega e latina, surgiu uma nova forma de produção literária, que possuía um público novo, pertencente às classes populares da sociedade. Assim, houve uma valorização da língua do povo brasileiro, o que possibilitava o acesso mais fácil ao texto conhecido como romance, gênero literário que não existia no período clássico.

Outro fato que influenciou bastante esse movimento foi a criação de novas escolas, bibliotecas, museus, casas tipográficas e órgão de imprensa no Rio de Janeiro (nova sede da monarquia), o que contribuiu para a promoção das informações, bem como para o incentivo a novas ideias no país. Além disso, D. João VI decretou a abertura dos portos para o comércio com outras nações, possibilitando a entrada de novas tendências no Brasil.

Características gerais da Primeira Fase do Romantismo no Brasil:

Diante desses fatos, podemos destacar as características gerais dessa primeira fase do Romantismo. São elas:

  • Exaltação à natureza: buscava uma linguagem nova que valorizasse as características físicas, sociais e culturais que faziam parte da pátria. Assim, houve uma valorização do vocabulário típico do brasileiro. Por meio da exaltação à natureza e à liberdade, os românticos fugiam da realidade que os massacravam em um país com problemas econômicos e sociais sérios. Dessa maneira, houve a produção de uma poesia que tinha o índio como herói nacional e que era expressa por meio de uma linguagem simples e acessível;

  • Indianismo/medievalismo: busca do índio como o elemento medieval que representava o nosso passado, a raiz do povo brasileiro e, por isso, esse elemento foi um dos temas principais dessa primeira geração. O índio substituiu a imagem do herói medieval, trazido pelas influências europeias.

  • Nacionalismo: O sentimento nacionalista de um país recém-independente era expresso de forma exagerada, uma vez que eram exaltados apenas os aspectos positivos da pátria. Assim, o olhar sobre a pátria era impregnado de idealização.

Temas principais

Esse período foi marcado por um forte sentimento de busca de identidade nacional, já que éramos um país recém-independente. Dessa forma, a primeira fase do Romantismo no Brasil apresentou como temas principais o amor impossível, o índio, a saudade da pátria, a natureza e a religiosidade.

Principais autores

⇒ Principais autores da poesia na primeira geração do Romantismo no Brasil

- Domingos José Gonçalves de Magalhães

- Antônio Gonçalves Dias

⇒ Principais autores da prosa na primeira geração do Romantismo no Brasil

- José de Alencar

- Joaquim Manuel de Macedo

- Manuel Antônio de Almeida

Veja a seguir mais um exemplo de produção dessa época com a descrição da índia Iracema na obra de José de Alencar:

Além, muito além daquela serra, que ainda azula no horizonte, nasceu Iracema.
Iracema, a virgem dos lábios de mel, que tinha os cabelos mais negros que a asa da graúna, e mais longos que seu talhe de palmeira.
O favo da jati não era doce como seu sorriso, nem a baunilha recendia no bosque como seu hálito perfumado.
Mais rápida que a ema selvagem, a morena virgem corria o sertão e as matas do Ipu, onde campeava sua guerreira tribo, da grande nação tabajara. O pé grácil e nu, mal roçando, alisava apenas a verde pelúcia que vestia a terra com as primeiras águas.
Um dia, ao pino do Sol, ela repousava em um claro da floresta. Banhava-lhe o corpo a sombra da oiticica, mais fresca do que o orvalho da noite. Os ramos da acácia silvestre esparziam flores sobre os úmidos cabelos. Escondidos na folhagem os pássaros ameigavam o canto.
Iracema saiu do banho: o aljôfar d’água ainda a roreja, como à doce mangaba que corou em manhã de chuva. Enquanto repousa, empluma das penas do gará as flechas de seu arco e concerta com o sabiá da mata, pousado no galho próximo, o canto agreste.
A graciosa ará, sua companheira e amiga, brinca junto dela. Às vezes sobe aos ramos da árvore e de lá chama a virgem pelo nome; outras, remexe o uru de palha matizada, onde traz a selvagem seus perfumes, os alvos fios do crautá, as agulhas da juçara com que tece a renda e as tintas de que matiza o algodão.
Rumor suspeito quebra a doce harmonia da sesta. Ergue a virgem os olhos, que o sol não deslumbra; sua vista perturba-se.
Diante dela e todo a contemplá-la, está um guerreiro estranho, se é guerreiro e não algum mau espírito da floresta. Tem nas faces o branco das areias que bordam o mar, nos olhos o azul triste das águas profundas. Ignotas armas e tecidos ignotos cobrem-lhe o corpo.

Perceba que a figura do herói nacional, o índio, representada nessa primeira geração romântica, faz referência ao herói medieval, ou seja, o índio é colocado com características idealizadas. Iracema também é colocada nesse lugar de heroína idealizada, pois, em diversos momentos da obra, o narrador compara-a à natureza, mas suas características são sempre maiores e mais belas: seus cabelos são mais negros e mais longos; seu sorriso, mais doce; seu hálito, mais perfumado; seus pés, mais rápidos. Além disso, ela era a virgem dos lábios de mel e deveria manter-se assim, pois era ela quem possuía “o segredo da jurema e o mistério do sonho.” Além disso, perceba que Alencar utiliza-se do vocabulário indígena com o objetivo de criar uma “língua brasileira”, autônoma e independente dos padrões da língua colonizadora.

Aproveite para conferir a nossa videoaula relacionada ao assunto: